terça-feira, 11 de março de 2014

ORAÇÃO PLA AMÉRICA DO SUL, por Eugénio de Sá


Que se incensem os céus em Vossa honra, Senhor!



Oração pla América do Sul



Olho as quietas copas das árvores
e nelas busco, desolado, alguma aquietação.

No silêncio das folhas que caem
pressinto ódios longincuos…
Nos ramos de cada árvore triste
Não vejo ninhos nem ouço pássaros.
Mas chegam-me gritos de medos e revoltas
abafados pelo fragor das ondas que se abatem
nas distantes praias da América do Sul.


E nesse momento nada mais existe para mim.
- Só talvez Vós, Senhor!

Porque sinto eu em mim esta prostração, Senhor?
E peço-Vos; Trazei-me apenas a esperança ao coração,
e fazei com que ela me chegue nos primeiros alvores
de uma urgente manhã!


Nuvens passam, lentas, quando fito o céu.
E eu sinto na minha alma a Vossa imensa dor
como sinto a dor das árvores, nuas e sozinhas
saudosas dos pássaros cantando nos seus ramos.

E vejo no céu plumbeo a treva que paira, ameaçadora, sobre tantos irmãos, e também vive latente na minha alma.



Mas eu não passo de um pobre poeta, Senhor!
E o meu sentir é um sentir... diferente;
é profuso de mágoas, cruciante…
E sei que a minha alma
é só uma ínfima parte do infinito distante,
esse espantoso e deslumbrante infinito
que só mesmo Vós, Senhor, entendeis e dominais.


O meu ser etéreo, suspenso, de êxtases inatingíveis,
erra pelos caminhos que se perdem pela terra
sem nunca alcançarem o céu.


Eu, Senhor, velho arbusto em vias de secar,
caminharei, ciente dos perigos de uma eminente derrota,
pois já não ouço a Vossa voz na natureza.


Mas olharei o céu e ficarei a orar em Vossa honra.


Que a minha voz possa lograr chegar até Vós.
E eu Vos peço, meu Deus:
Tende os destinos da América do Sul
no Vosso coração.

Neste grande e lindo sub-continente que criaste,
há milhões de almas Vossas
em perigo de se ver vergadas a credos malditos,
por uma vontade que não é a sua!



Essas almas são puras e as Vós pertencem.
Tende-as no Vosso próprio Ser, Senhor,
Tende os seus espíritos presentes no Vosso espírito.


E que elas permaneçam na luz
Porque só por Vós elas clamam,
E só as Vós amam e exaltam.


Eugénio de Sá
Sintra, Portugal - 9 de Março de 2014









sábado, 8 de março de 2014

CATARINA EUFÉMIA - 60 anos depois do seu bárbaro assassinato... e o Poema ALENTEJO, de Eugénio de Sá - inclui links para Canções de Zeca Afonso

Catarina Eufémia

Este ano cumprem -se 60 anos

sobre o seu bárbaro assassinato.
Os portugueses não a esqueceram!




Catarina Eufémia


a mártir ceifeira alentejana
( 13 de Fevereiro de 1928 — 19 de Maio de 1954)


   Foi a 19 de Maio de 1954,  está prestes a fazer 60 anos, que Catarina Eufémia foi assassinada em terras alentejanas de Baleizão pelas forças do regime fascista.


  Lutava por pão e por trabalho e, rapidamente, se tornou um símbolo da resistência do proletariado rural alentejano à repressão e à exploração dos senhores da terra, suportados pela ditadura e, ao mesmo tempo, um símbolo do combate pela liberdade e da emancipação da mulher portuguesa.

  Nos tempos que correm, o exemplo de Catarina Eufémia continua a inspirar homens e mulheres que lutam, ainda hoje, pelo fim da exploração, por uma sociedade mais justa e mais fraterna.

  Estão a ouvir Zeca Afonso, o saudoso poeta-cantor da revolução de Abril, na sua imortal composição em memória da mártir Catarina.


Cantar Alentejano:








Zeca Afonso é também o autor de  

Grândola, Vila Morena

a famosa canção transmitida pela rádio na noite de 24 de Abril de 1974, que desencadeou a Revolução dos Cravos.

Aqui a têm:



40 ANOS DEPOIS

os cravos jazem agora pelo chão...



...esquecidos, abandonados,

tal como a esperança de um povo !




 Em homenagem à memória
de Catarina Eufémia 
relembro o meu poema:



Alentejo 

(Eugénio de Sá)


Espigas desta terra
Vocação de pão
Searas de vento
Ventos de paixão
Juntam-te fermento
Do meu coração

Espigas desta terra
Celeiros de amor
És calma de estio
Amas o calor
Mãos em desvario
Ceifadas na dor

Espigas desta terra
Rude gente a tua
Que sofre e não cai
Nas pedras da rua
Mas em ti se esvai
Ruas d'amargura

Espigas desta terra
Mulheres te serviram
Feitas fundas mágoas
Não sei se elas riram
Seus olhos mares d’águas
Flores que não floriram



Nota do autor:

Alentejo, a maior província de Portugal.
Foi em tempos o seu orgulhoso celeiro,
mas o seu pão era feito de sangue,
 suor e lágrimas.

Agora é umas das regiões europeias
mais despovoadas,
onde vagueiam, sem soluções,
velhos e animais,
perdidos nas profundezas do esquecimento.
         
Alemães e ingleses
vão-lhe comprando as entranhas,
que mais ninguém quer.

Sei o que foi aquilo;
o inferno ao calor do sul,
a fome ao frio da indiferença.
Hoje, é o abandono
ao estigma do despovoamento!


Aos que, porventura, não me conhecem, saibam que
que, desde sempre, me mantenho distante de qual-quer força ou corrente político-partidária, nem sou por elas influenciado, só me movendo o sentido de justiça e de um humanismo solidário, de que muito me orgulho.
E.Sá


Esta é uma edição de:



Sintra, Portugal

8 de Março de 2014



quarta-feira, 5 de março de 2014

PRA TUDO SE ACABAR ... NA QUARTA FEIRA um poema de Eugénio de Sá




Pra tudo se acabar...
na quarta feira?

(Eugénio de Sá)

  

Quarta feira chegou;
E as cinzas que o vento vai varrendo
Calam do Carnaval todos os ecos
No ar ficou, sozinho, um vão lamento
De um violão que dobra, sonolento...
                                   alguns acordes secos.

Quarta feira chegou;
E com ela, inda mais triste, a tristeza
Ocupou o espaço da felicidade
Que já cansada, de tanta grandeza
Perdeu pr’os indigentes ...
                                   a exclusividade.

Quarta feira chegou;
E lá volta a desgraçada e vil miséria
A amansar as revoltas dos pobres
Que delas se esqueceram c’o a pilhéria
De envergar os mais lindos e vistosos...
                                   trajes nobres.

Mas torna o futebol, e entretanto;
Joga-se tudo na ilusão fugaz
De que o encanto está na corda-bamba
E de que basta um golo 'daquele rapaz'
Pra que lhes fique louco o coração...
                                   no saltitar de um samba!


 Artes Finais Rita Rocha
Imagens Internet

Sintra - Portugal - Março 2014

domingo, 2 de março de 2014

CARNEVALE um poema de Eugénio de Sá


Carnevale

Eugénio de Sá


Tem na história explicações distantes
O Carnaval como hoje o conhecemos
E do pouco que lemos e sabemos
Quase voltou ao tudo que era antes

Lembremos o Egito há seis mil anos
Quando Isis inspirou toda essa festa
E nas margens do Nilo se cumpria a gesta
Em honra à fértil terra dos profanos

Depois foram os gregos a criar
Em culto a Dionísius rituais
Próprios de um deus, gerados por mortais
Amantes de beber e de folgar

Já Roma ao deus Saturno dedicou
As festas mais ousadas e carnais
Promovendo na urbe as saturnais
E em bacanais e vinho se afogou

De “carrum navalis” era então chamado
O cortejo que abria a temporada
Pois tinham proas, rés e amurada
Os carros do desfile engalanado


E foi vez de pôr cobro à extravagância
Com usos d’outra gente mais austera
E o carnaval passou a ser quimera
Quando os cristãos esfriaram essa ânsia

Já século quinze andado o Papa Paulo
Decidiu abrandar a interdição
E permitir que todo o bom cristão
Dançasse mascarado a seu regalo

Mas é próprio do homem e da história
Que se alarguem limites ao início
E assim de presto voltou tudo ao princípio
Esquecidas restrições de má memória

E enquanto a Veneza evidencia
Ainda algum pudor e continência
Noutros locais do mundo em opulência
Solta-se a carne viva na folia

Hoje os ecos do samba são ouvidos
Por todo este planeta admirado
E o Carnaval aos pés do Corcovado
Deixa a perder de vista os mais antigos




Nota do autor:

Por ordem cronológica, a história do Carnaval radica no Egito, na Grécia e Roma antigas, e nas cidades marcadas pelo Renascimento Europeu,  particularmente Veneza.

O Carnaval encontra no Rio de Janeiro o seu quarto Centro de excelência resgatando o espírito  de Baco e Dionísus.

Ao contar uma história que completa seu sexto milênio e que acompanha a própria história da humanidade,

a história do carnaval, considera os seus marcos de referência,  divididos em quatro  períodos: o Originário(4.000 anos  a.C. ao século VII a.C.), o Pagão (do século VII a.C. ao século VI d.C.), o Cristão ( do século VI ao século XVIII ) e o Contemporâneo (do século XVIII  à actualidade).



Sintra - Portugal - Março 2014

sábado, 1 de março de 2014

POETA, QUEM ÉS TU? - Uma peça poética de Eugénio de Sá



Poeta, quem és tu; um lavrador de sonhos,
ou simplesmente um artesão de versos em filigrana? 
Coração em filigrana - Portugal

Poeta, quem és tu?

( Eugénio de Sá )


Poeta; que inquietação é essa que te assalta a alma
Que tão depressa te faz correr a pena, buliçosa,
Como a deixas pousada,  inerte, expectante e curiosa
Até que, de novo, te volte o viço de escrever, em versos,
A vida, que bastas vezes parece querer deixar-te à margem?

Nasceste para amar a humanidade, total e incondicionalmente.
Não obstante, sofres com ela as suas dores e desesperos
E, por ela, carregues tantas mágoas, que mal as podes suportar.
Ainda assim, deixas que se apurem em ti paixões alheias,
Amores e abandonos, que sentes como se fossem teus...

Ah poeta, que acompanhas a noite servindo-te da lua
Para passeares as tuas reflexões, deslumbres, desatinos e frustrações
Como as filhas da rua, que dela se servem, em hesitantes passos
Para mostrar os seus corpos usados, na ilusão que um dia aprenderão a amar.
Que procuras, poeta, nessas pedras gastas de tantos cansaços?

Julgado e julgador, vives das complexas misturas de sentimentos
Em que te envolves e te aprisionas pela plena assumpção da tua missão
Até que se te apague no peito o sopro desta tua penosa existência terrena.


A Missão do Poeta

( Eugénio de Sá )


Porque o sonho é a base da poesia
- 
e sem ele não há inspiração -
o poeta sempre tem por primazia
transmitir do seu sonho a emoção

Da magia que a sua mão desenha
em cada verso fluirá o amor
e cada dor encontra a esperança prenha
nas carícias da alma do autor
Não é um Deus menor que lhe acalenta
a tristeza que às vezes o domina
e que o seu coração não afugenta
Por que o induz a mágoa que apascenta
as agruras da vida e dos irmãos

a que ele não se exime nem se ausenta

2008

Sintra - Portugal - Março de 2014